INTRODUÇÃO

Ainda é freqüente a idéia de que o profissional da saúde deve ser imparcial com seu paciente, ou que para "suportar" todas as dificuldades as quais se depara, ele não deve se envolver emocionalmente. Devido a esses antigos preceitos, observamos uma dificuldade de comunicação e relacionamento entre profissionais da saúde e seus pacientes, pois, a partir do momento em que é assumida uma posição de distanciamento e, muitas vezes, de superioridade, os processos de comunicação são dificultados pela falta de interação, o que não é difícil de compreender.

Este comportamento, baseado numa abordagem racional com "frieza emocional" diminui a qualidade do atendimento como um todo: desde a falta de informações na obtenção da história clínica ou até mesmo no decorrer do tratamento, onde o paciente, muitas vezes, o faz de forma distorcida e omite tal falha ao médico por medo de ser criticado. Em pacientes pediátricos, a dificuldade de comunicação interfere ainda mais no processo de recuperação. As crianças, muitas vezes, resistem aos procedimentos médicos, tornando-se estressadas e, conseqüentemente, mais reticentes devido à falta de confiança estabelecida através de uma interação mal sucedida.

Ao procurar o serviço de saúde, o paciente geralmente encontra-se debilitado fisicamente e psicologicamente sendo necessária à prática de um atendimento holístico. Este não deve ser centrado exclusivamente à doença, mas sim ao paciente como um todo. Para isso, é preciso interação e comunicação, que deve ser aprendida e exercitada durante o período de graduação.

Em alguns serviços de saúde já é percebida uma maior preocupação com o atendimento integral e generalizado. Isto fica claro ao vermos uma quantidade crescente de clínicas multidisciplinares que abordam não somente o problema físico, palpável e diagnosticável através de exames complementares, mas que também estão interessadas em abordar outros aspectos da saúde, preocupando-se efetivamente com a qualidade de vida do paciente.

A partir das observações expostas e de sentimentos pessoais latentes, foi criado o projeto Terapeutas da Alegria, composto por uma equipe de acadêmicos que desenvolvem o espírito inter e transdisciplinar e sensibilizado no atendimento ao paciente, exercitando uma abordagem integral e humanizada.


OBJETIVOS

O projeto Terapeutas da Alegria tem como objetivo principal auxiliar na formação de profissionais da saúde preocupados com a qualidade de vida do paciente, capazes de abordá-lo de forma integral e transdisciplinar, colaborando para a melhoria do atendimento nos estabelecimentos de saúde. Além disso, há preocupação em integrar os acadêmicos de diversos cursos, enfatizando a importância do trabalho inter e transdisciplinar e da abordagem integral e generalista ao paciente; promover a prática de saúde preventiva em instituições que abrigam crianças carentes; estimular a prática de trabalho voluntário; incentivar e promover pesquisa na área de atendimento humanizado e influência de atividades lúdicas com pacientes hospitalizados, profissionais de saúde, funcionários e acompanhantes.

Para tais fins, utilizamos a musicoterapia, o teatro clown, a expressão corporal e o bom humor como ferramentas facilitadoras nas relações de interação, implementando o vínculo entre o comunicador ("terapeutas") e o receptor (pacientes, acompanhantes, profissionais de saúde, funcionários e os próprios acadêmicos), o que facilita o alcance do objetivo proposto.

Os objetivos mais específicos que estão sendo trabalhados em nossas atividades: diminuir o estresse sofrido pelos pacientes em processo de tratamento; diminuir o receio presente principalmente nas crianças, ao se depararem com profissionais da saúde; propiciar momentos de descontração e alegria aos pacientes, acompanhantes, bem como aos profissionais da saúde; utilizar o riso, a música e o teatro como ferramentas auxiliares no estabelecimento da comunicação entre profissionais da saúde e pacientes; incentivar os profissionais da saúde a promover um ambiente de bem estar aos pacientes; evidenciar a importância da relação afetiva adequada que deve existir entre profissional da saúde e paciente; integrar acadêmicos de diversos cursos, cultivando o espírito de interdisciplinaridade; e, estimular nos participantes do grupo o trabalho voluntário.


METODOLOGIA

O grupo realiza reuniões semanais para preparação das "apresentações" e discussão de assuntos relacionados à importância da atenção integral ao paciente, trabalho em grupo, atendimento inter e transdisciplinar, estresse, humor, impacto da música sobre o paciente, etc. Nestes momentos, também são realizadas análises das visitas. Faz-se um breve relato sobre o que cada integrante do grupo sentiu ao abordar determinado paciente.

As visitas são realizadas semanalmente ao Hospital Maternidade Marieta Konder Bornhausen (H.M.M.K.B), Hospital Universitário Pequeno Anjo (HU) localizados na cidade de Itajaí-SC, e ao Hospital e Maternidade Santa Inês localizado na cidade de Bal. Camboriú, nos seus diversos setores (pediatria, enfermarias, UTI, emergência, sala de espera). Os "terapeutas", dirigem-se ao setor devidamente caracterizados (jalecos coloridos, nariz vermelho, perucas e adereços), e executam uma enquête (pequena encenação) seguida de uma música temática, acompanhadas por instrumentos musicais.

Durante a visita, realizada tanto às crianças quanto aos adultos, os integrantes do grupo exercitam a abordagem ao paciente, conversam e tentam desviar a sua atenção do foco da doença. As músicas utilizadas nas "visitas" abordam temas que podem ser divididos, de forma geral, em três grupos: o primeiro, traz em suas letras, situações relacionadas à saúde e ao estado de doença, como: dor, injeção, médico, enfermeira etc; o segundo grupo, retrata situações, fatos e datas comemorativas, tentando aproximar o paciente do seu dia-a-dia, ou seja, diminuindo o distanciamento que o separa do mundo fora do hospital; e, por fim, o terceiro grupo é composto de canções de roda e outras músicas populares e folclóricas que possam trazer recordações agradáveis ao paciente, seja ele pediátrico ou adulto.

Para que possa haver uma maior participação dos pacientes, acompanhantes e funcionários, cantamos músicas simples, com refrões que podem ser memorizados facilmente, melodias que exigem uma pequena extensão vocal para serem executadas. As músicas são coreografadas com movimentos que podem ser realizados pelo paciente deitado no leito, estimulando uma atitude mais ativa, melhorando seu estado geral.


DISCUSSÃO

As atividades para reconhecimento de campo e de aceitação no âmbito hospitalar iniciaram no dia 09 de maio de 2003, no Hospital Universitário Pequeno Anjo. Atualmente as visitas são realizadas no HU e no H.M. Sta Inês ás quintas-feiras e ás sextas-feiras no H.M.M.K.B, por um período de 1 hora. As diretorias dos hospitais e os funcionários foram muito receptivos, os quais passaram a convidar os Terapeutas da Alegria para apresentações em outros setores.

Atualmente contamos com a participação de acadêmicos dos cursos de medicina, fisioterapia, enfermagem, psicologia, farmácia, fonoaudiologia, publicidade e propaganda, relações públicas, direito e música, sendo as apresentações realizadas nos diversos setores dos hospitais. O projeto terapeutas da alegria teve inicio na cidade de Tubarão-SC em 2002, sendo trazido para Itajaí por quatro acadêmicos de medicina. São realizadas oficinas para preparação dos acadêmicos, além de encontros e trocas de informações. Temos alcançado bons resultados, através de relatos realizados pelos pacientes, profissionais de saúde, funcionários e principalmente pelos próprios acadêmicos que integram a equipe.

Em julho de 2003 os Terapeutas da Alegria de Tubarão e Itajaí, participaram do VII Congresso Brasileiro de Saúde Coletiva, em Brasília, onde teve a oportunidade de apresentar seu trabalho nos Hospital Universitário da UnB e no Hospital SARAH. Além disso, foi apresentado o projeto ao Ministro da Saúde, Humberto Costa, o qual encaminhou o trabalho para ser incorporado às atividades do Ministério da Saúde, na forma de programa nacional a ser implantado nas faculdades de medicina como ferramenta auxiliar no processo de sensibilização do acadêmico.


RELATO

Parecia ser mais uma quinta-feira, em que apresentávamos nosso teatro, cantávamos e saíamos do hospital renovados, com um novo astral por poder levar um pouco de amor e carinho para aqueles pacientes que se encontravam no HU. Mas foi, além disso, e por sinal muito além. Estávamos todos no andar superior do HU dando nosso “barulhento” bom dia, ao entrarmos em um dos quartos nos deparamos com quatro crianças, todas nos olharam com uma cara de espanto e ao mesmo tempo de alegria por nos verem caracterizados, cantando e distribuindo balões.

Percebíamos que as fisionomias daquelas crianças mudavam completamente. Tivemos ainda a sorte de que um dos pacientes estava fazendo aniversário, então cantamos parabéns, demos risadas e mais risadas juntos e cada minuto naquele quarto o ambiente se tornava mais alegre. Devido a essa alegria que aquelas crianças nos proporcionavam vimos que faltava um pouco mais de cada um de nós, foi onde decidimos prorrogar um pouco nossa visita e fazer ali o teatro da lombriga. Dr. Habbib (Reiby) com a viola e Dr. Sabe Nada (Rafael) com toda sua irreverência fizeram com que as crianças não perdessem um minuto sequer a atenção em nosso teatro.

Como era quase uma hora da tarde aquelas crianças estavam simultaneamente vendo nosso teatro e comendo um suculento prato de arroz com feijão dado por suas mães. Então virou aquela “bagunça” de riso com comida e foi uma festa. Mas o melhor ainda estava por vir, no final do teatro distribuímos balões á todos, cantamos mais uma música para nos despedir e fomos saindo devagar do quarto em direção a saída do HU, foi nesse momento que uma das mães que estava no quarto nos chamou e disse:

"Estou neste hospital com meu filho há uma semana e desde que chegamos, ele não vem se alimentando de forma correta, não havia como faze-lo comer um prato de arroz e feijão, seu alimento era somente leite na mamadeira. Moço já estávamos ficando preocupados, pois era um largo tempo sem se alimentar, então gostaria de agradecer vocês Terapeutas da Alegria por conseguirem através da alegria e do riso prender a atenção do meu filho e fazer com que pela primeira ele comesse toda sua comida".


CONCLUSÃO

A partir dessas palavras realmente percebemos que não estamos no hospital apenas para nos caracterizarmos de “palhaços” e fazer com que os pacientes riam, e sim porque acreditamos que com alegria e bom humor podemos melhorar a qualidade de vida dos pacientes, levar um pouco de amor a quem sem dúvida alguma naquele momento necessita tanto de um pouco de carinho e atenção.

Têm-se observado várias mudanças no cotidiano dos setores beneficiados pelas visitas dos Terapeutas da Alegria. Com a música e o teatro, o ambiente hospitalar tornou-se mais informal e descontraído, o riso pode ser observado mais freqüentemente e alguns materiais próprios do hospital, como luvas, macas e cadeiras de rodas acabam tornando-se ferramentas utilizadas para motivar a descontração afastando qualquer medo ou pavor desses instrumentos.

Não queremos encontrá-lo em um ambiente hospitalar, mas se assim o encontrarmos, prepare-se para uma terapia de amor, exercida pelos Terapeutas da Alegria.

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